Bloco Afro Cultural Lamento Negro - Peixinhos - Olinda - PE: Relatos e Retratos de uma trajetória coletiva
- Luana Santana
- 16 de dez. de 2025
- 11 min de leitura

Kennya de Lima Almeida (História UFRPE)
Luana Santana (Educação UFRPE)
Cida Fernandez (Educação UFRPE)
Osmair José de Melo (Maia) (LAMENTO NEGRO)
Waldir Silva de Oliveira (LAMENTO NEGRO)
O LAMENTO NEGRO é um Bloco Afro Cultural de Peixinhos, cidade de Olinda/PE. Criado no ano de 1987 representamos através das nossas músicas a luta e o legado do povo negro, que vive e resiste em um território constantemente negligenciado pelo poder público. Fomos o primeiro bloco de carnaval a levar o nome de Peixinhos para o Brasil e para o mundo e que também fez parte da formação musical e do letramento racial de nomes importantes do movimento Mangue Beat como Chico Science, Gilmar Bola 8, Otto, Fred 04 e muitos outros grandes artistas pernambucanos. Afro Mangue, Maracatu, Coco, Ciranda, Samba Reggae são exemplos de ritmos que fundamentam a expressividade musical do nosso grupo, que em 2027 completará 40 anos de re-existência.
Criado por adolescentes e jovens negros do bairro de Peixinhos, na periferia de Olinda na divisa com a cidade do Recife, em Pernambuco, num período que ficou marcado no Brasil pelas intensas mobilizações sociais na luta pela abertura democrática, pela ruptura com a ditadura civil-militar e pela construção do Estado Democrático de Direito (1984-1988) O povo passa a ocupar as ruas com a bandeira das Diretas Já, até a promulgação da Constituição Federal, também conhecida como a Carta Cidadã, em 1988.
Durante todo o período que antecede a Constituinte Participação Popular, como ficou conhecido o processo amplamente participativo daquela ocasião, organizaram-se e/ou mobilizaram-se diferentes movimentos sociais em defesa de direitos, as ruas iam sendo ocupadas e as vozes do povo amplificadas. Milhares de homens e mulheres, indígenas, negros e negras, crianças e adolescentes em situação de rua, movimentos dos trabalhadores e trabalhadoras sem-terra, movimento de pessoas sem teto, movimentos estudantis, movimentos de pessoas com deficiência, entre tantos outros. Era o povo ocupando seu devido lutar: sujeito de sua história.
1988 foi também do Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, e o cenário de mobilização social, favoreceu também o fortalecimento, a reorganização e o protagonismo do Movimento Negro, pavimentando o caminho para que, 15 anos depois, em 2003, fosse aprovada a Lei 10.639/20033 , que estabeleceu a obrigatoriedade do Ensino da História e da Cultura Afro-brasileira, sancionada no primeiro mandato do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esta Lei representa uma importante conquista para o enfrentamento ao racismo estrutural, por romper com um projeto político-pedagógico que apagava “a influência e a contribuição das populações africanas na formação cultural, econômica e social do Brasil”. (CARVALHO; SANTOS, 2023).
O Lamento Negro, amparado e motivado pela força da conquista dessa Lei, luta até hoje, para sua efetivação nas redes escolares da cidade e da Região Metropolitana e, passa a demarcar em sua trajetória, sua contribuição singular como movimento: a luta radical por uma educação antirracista, pela afirmação da cultura e da história ancestral dos povos que construíram esta nação, forjada a ferro e sangue, mas também na beleza da sabedoria ancestral, na alegria de uma cultura que recupera suas forças e se fortalece em sua história para seguir na resistência.

Projeto Agosto Negro – Escola Monsenhor Fabrício, em Peixinhos5
Território e ancestralidade: da herança da escravização ao despertar dos sujeitos políticos
Peixinhos nasce às margens de um rio, que evoca no imaginário popular a beleza das suas águas limpas, tão limpas que permitiam observar os peixinhos coloridos que circulavam no fundo do seu leito, como nos relata Zuleide de Paula, historiadora comunitária, uma das guardiãs das memórias do bairro, em seu livro.
Mas esse rio foi também cenário de conflitos históricos e ambientais, cercado por matas densas e engenhos de açúcar com seus os plantios de cana, sua monocultura e economia forjadas na escravização de corpos negros.
A primeira referência apresentada por Maia para a genealogia do bairro foi o Quilombo do Catucá. As memórias sobre Catucá, como ameaça ao governo dos escravocratas, foram tão significativas para Pernambuco quanto o Quilombo dos Palmares. Em 1849, o rebelde liberal da Revolução Praieira, Borges da Fonseca, nomeou o jornal da insurreição de O Catucá, pois o termo representava tudo aquilo que incomodava o status quo. Para os integrantes do Lamento Negro, em suas memórias, da margem da periferia, o bairro, nas suas ruas e vielas, mantém vivas as memórias de fugas, abrigo, resistência e criação.
A gente via necessidade de mudar o bairro de Peixinhos, que era o segundo bairro mais violento da América Latina, como tinha o Matadouro na época lá, né? (...) E até porque a gente entende por que era o segundo bairro mais violento da América Latina, porque ali é uma das partes do Quilombo do Catucá. E ali, onde passava a Presidente Kennedy, que era a via que saia os caras, as pessoas, os barões que moravam em Olinda, na Cidade Alta, que passava com a sua mercadoria para vender no bairro. E ali era muito saqueado, porque o nome daquela avenida era Estrada do Matumbo7 , né? E a gente entende por conta da violência.
Esse período dos anos de 1980 a 2000 foi um período de transformações importantes que contribuiu para a ampliação da percepção dos jovens, especialmente dos periféricos, sobre suas realidades, sobre seus direitos. Essa atitude coletiva da luta por direitos potencializou a transformação dos anseios por mudanças em arte e a arte - em suas múltiplas linguagens - produzidas viraram ferramentas criativas para ampliar suas vozes e encontrar outras vozes nessa história. Não por acaso, foi neste período, que vimos nascer os Racionais MC’s, formado em São Paulo, a Banda Devotos do Ódio do Alto José do Pinho em Recife e o Movimento Mangue Bit, em Recife e Olinda, e que revelaram essa criação e as vivências das favelas que não estavam registradas pela mídia nacional.
Quando pulsa o coração: um encontro com a ancestralidade
O Lamento Negro dançava break na associação dos moradores lá, e a gente saía para dançar em outras comunidades. E aí um dos nossos irmãos lá, o Nequinho, foi no Alafim e disse: ó, tem uma negrada que dança diferente da nossa. Vamos lá para ver como é que é. E aí, quando a gente chega no Alafin, fica todo mundo espantado com o que estava se tocando, com as músicas que a gente estava cantando. [...]
O Alafin abriu a sensorialidade do Lamento para se reconhecer em outras musicalidades também de origem ancestral. Com a mão sobre o peito, Maia relatou ter sentido a ancestralidade ecoar no coração ao ouvir, pela primeira vez, os tambores do Alafin Oyó,
E aí, hoje a gente entende que os tambores, os bombos, fazem a pessoa dançar, bate logo no coração e dá aquele impacto para você sacudecer, saculejar. (...) Aí, no 5 de fevereiro, a gente monta o Lamento Negro, nessa expectativa de mudança. E começa por nós, os filhos dos marchantes10 que tinham lá em Peixinhos, daqueles valentões de Peixinhos, começa por nós essa mudança. Essa mudança é lá no Alafin, que a gente vê, e aí quando leva para Peixinhos a gente monta uma afoxé, depois a gente começa a ouvir os tambores lá da Bahia, depois a gente começa a participar dos maracatus que tem aqui, do Leão Coroado, que era lá em Água Fria.

A música, a percussão e a dança atuavam, assim, como atos políticos de desobediência civil não violenta, e foi a partir dessa experiência que o grupo decidiu pela restauração da autoestima e da dignidade da comunidade (Butler, 2021). Nessa caminhada, o Lamento vai se configurando como um movimento artístico musical pela transformação das condições de vida de sua comunidade e, junto com outros grupos que compunham um mosaico de expressões artísticas juvenis que iam das bandas de punk, rock, hardcore, break, teatro, dança diversas, literatura, poesia, pouco a pouco vai ocupando as ruínas para se manifestar, para “dizer sua palavra”, pois percebiam suas restrições e começavam seu enfrentamento,
É que a gente surge em um momento de... No final da repressão que tinha aqui no Brasil, da ditadura. Esse final foi onde nós, quando era muito jovem, a gente percebeu que passamos por isso. Pelo processo de restrição, né? Que a gente não podia tocar, a gente não podia se vestir, não podia andar, ficar tarde no meio da rua e até fazer o que a gente gostava, né? Jogar bola, jogar capoeira, que era tudo... Coisa de vadeagem, né? Até hoje muita gente ainda vê o processo musical e o processo da capoeira como vadeagem.
Esse bate-papo memorial, que foi o ponto de partida para a escrita deste artigo, passou pelo resgate da memória dos tempos de meninos, dos fundadores do Lamento Negro, suas motivações de adolescentes e jovens, numa perspectiva histórica, de quarenta anos de trajetória. Não coube tudo numa tarde, como não cabe tudo neste artigo. Mas é fundamental destacar que o Lamento Negro, com seus quase 40 anos de existência, tem muito a ensinar, dos seus encontros com a música, com a arte como forma de resistência; dos seus reencontros com a ancestralidade, retomada coletiva de um território de abandono.

Carnaval de 2025, após um show realizado no Pátio do Terço, em Recife.
O Bairro conformado a partir da inauguração da fábrica de cortume, em 1919, instalada dentro do complexo arquitetônico do Matadouro Industrial Municipal de Olinda, e da fábrica Fosforita, que mobilizaram um contingente populacional significativo vindo dos sertões do estado e da Paraíba em busca de trabalho. Abandonado nos anos de 1970, o que tinha sido motor propulsor da ocupação do território, com o encerramento das atividades econômicas do Matadouro, é simplesmente abandonado, consequentemente impactando no abandono de toda uma comunidade e no aprofundamento do estigma do matadouro associado à violência,
Depois tem o Matadouro, e a violência começou a se cadear desse processo que tinha, e era uma violência muito forte, porque não tinha arma de fogo e era a violência de faca. E nós, como era menino, jovem, crianças lá de Peixinhos, a gente queria mudar essa ideia, então surge o Lamento Negro. A gente foi com a perspectiva de mudança mesmo, de levar autoestima para a comunidade, para a favela de Peixinhos.
Ao contribuir para a transformação do antigo Matadouro em Nascedouro da Cultura Popular, espaço de aprendizagem e acolhimento comunitário, o Lamento Negro (1989), somado aos demais coletivos que ocuparam o território como: o Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças (1987), o Movimento Cultural Boca do Lixo (1993), os Balés Afro Majé Molê (1999) e Gazela Negra (1995), o grupo de Senhoras da 3ª Idade, Grupo de Saúde Condor e Cabo Gato (1997), as bandas de punk, rock, hardcore, teatro, dança, artes plásticas; possibilitaram sua reconfiguração num território em que as várias juventudes com suas expressões artísticas e culturais, com seus dizeres e anseios, conferiram um novo significado ao que um dia foi um matadouro, para transformá-lo em Nascedouro da Cultura Popular.
Este é só um pequeno retrato da trajetória desse coletivo afro cultural, que hoje se define como pan-africanista, por se reconhecer nas diferentes expressões e experiências socioculturais da África diaspórica. Este trabalho está inserido no conjunto de atividades da disciplina Movimentos Sociais, Identidades e Cidadania Interculturais, do Programa de Pós-Graduação Educação, Culturas e Identidades, promovido pela Universidade Federal Rural de PE - UFRPE, em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco - Fundaj, sob a orientação dos professores Moises de Melo Santana e Maurício Antunes. Nosso objetivo é entender como o grupo age como um movimento social, como faz arte e como luta politicamente para resistir. A partir de uma abordagem biográfica e autobiográfica, construída em coautoria com Waldir Oliveira (Maia) e Osmair Melo (Valdir), refletimos sobre memórias individuais e coletivas que atravessam o território. Estas lembranças e fatos estão conectados a processos históricos mais amplos, como a Abertura Democrática, a Constituição de 1988, o centenário da Abolição e o do Movimento Negro no Brasil. A partir da escuta atenta e da troca de ideias, o encontro permitiu visualizar a agência do Lamento Negro no cenário das lutas pela transformação social no território de Peixinhos.
Nossos agradecimentos a todos, todas e todes que fizeram essa oportunidade acontecer, em especial, à generosidade da equipe do Lamento em nos acolher e nos contar sua história.
Como não cabe tudo neste escrito, tem muita coisa ainda para saber, a exemplo da influência do Lamento, para Chico Science e o surgimento do movimento Manguebeat, dentre outras informações muito relevantes, deixamos aqui alguns links para que o leitor/a mergulhe numa investigação autônoma e se aprochegue a esse trabalho tão bonito e potente.


Para saber mais
https://www.youtube.com/watch?v=pbHqCTIUH44 - Bloco Afro Lamento Negro tornase Patrimônio Cultural Imaterial do Recife – TV Câmara 11 de fev. de 2025
AGOSTO NEGRO SEGUE EM MOVIMENTO. É PLANTA QUE BROTA ONDE
HOUVER TERRA PRETA. O projeto Agosto Negro, realizado pelo Bloco Afro
Lamento Negro, continua a trilhar caminhos de memória e potência nas escolas
públicas de Olinda, onde a cultura pulsa como direito e resistência.
https://www.youtube.com/watch?v=9C1dTDgzTKU - BLOCO AFRO LAMENTO
NEGRO - PAÇO DO FREVO - RECIFE/PE - CARNAVAL 2024 - EM 17/01/2024
https://www.youtube.com/watch?v=Q5vYy5b4nlg – Eu sou lamento
O documentário apresenta a influência do bloco afro Lamento Negro dentro da
comunidade de Peixinhos em Olinda, no contexto e cenário musical desenvolvido em Pernambuco e em questões sociais no Estado, tanto no passado, quanto no presente. A história é contada desde o começo através de relatos de personagens fundamentais para a fundação e a consolidação do bloco nos 30 anos de história. Ficha técnica Direção: Almir Cunha Produção: Almir Cunha e Osmair José Roteiro: Marcela Coutinho e Tyago Bianchi Edição: Camilla Santos Dias Imagens: Antônio Gabriel Macha e Camilla Santos Dias
https://www.instagram.com/reel/DG6YzTaRtwt/ O LAMENTO NEGRO é um Bloco
Afro Cultural de Peixinhos, cidade de Olinda/PE
1 Olinda - Lamento Negro - faixa 12 da Coletânea Pernambuco em Concerto -
Olinda - Lamento Negro, 2000 -
1 Sistema - Lamento Negro - 4ª Faixa do CD Boemia do LAMENTO NEGRO -
Sistema 1999.
Na beira do Mangue – Lamento Negro 1ª Faixa do CD Boemia do LAMENTO NEGRO
- Na beira do mangue, 1999.
https://www.youtube.com/watch?v=b2Nux1HCgAU Documentário Eu Sou Lamento – Músico e fundador Gilmar Bola Oito e outros depoimentos
CHICO SCIENCE, NAÇÃO ZUMBI E LAMENTO NEGRO As duas PODCAST.Canal
AS DUAS PODCAST
Referências
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narrativas midiáticas do bairro Peixinhos. masterThesis. Disponível em:
<https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/65084>. Acesso em: 11 out. 2025.
BUTLER, Judith. A força da não-violência. Lisboa, Portugal, Edições 70, 2021.
CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de. O Quilombo do Catucá em Pernambuco.
Caderno CRH, n. 15, p. 5-28, jul./dez., 1991
CARVALHO, Hallana; SANTOS, Lília. Lei 10.639 completa 21 anos reafirmando-se
como marco na luta da população negra - Geledés. Lei 10.639 completa 21 anos
reafirmando-se como marco na luta da população negra - Geledés . Acesso em:
07/11/2025
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ZAHAR, André Zahar. Raízes conectadas: passados 25 anos, precursores do
Manguebeat fazem balanço e apontam legados do movimento. Disponível em:


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